Já repararam que toda a gente tem algo a dizer sobre quem é diferente deles?
Sempre convivi de perto com a diferença. O meu irmão nasceu com problemas (paralisia cerebral) e devido a ter nascido com o cordão umbilical enrolado no pescoço, engoliu líquido amniótico, pelo que sempre teve problemas de peso provocados por isso.
Até à minha 4ª classe (o actual 4º ano), o meu irmão sempre andou na mesma escola que eu, mas quando tive de ir para o liceu, os meus pais optaram por colocá-lo numa escola própria para cidadãos deficientes.
Tenho sorte, pois o meu irmão anda, fala, é bastante independente no seu dia-a-dia, mas o seu desenvolvimento cerebral é o equivalente a uma criança de 5 ou 6 anos (tem 31), pelo que não pode viver sozinho. Não sabe ler nem escrever, mas perguntem-lhe alguma coisa sobre os programas favoritos dele e é vê-lo falar…
Adora desenhos animados, especialmente os que tenham canções, pois adora cantar. Sabe o filme “Música no Coração” de trás para a frente e, embora não saiba Inglês, sabe as músicas e as falas todas…
Lembro-me de quando mudámos de colégio, que os meninos gozavam por causa do peso dele, mas eu saía logo em defesa dele e explicava o problema e, ao fim de uns tempos, já ninguém gozava, já todos brincávamos juntos. Sempre que eu me apercebia de alguém a olhar de lado para o meu irmão ou a fazer um comentário sobre ele (fosse criança ou adulto) eu virava bicho!
Sou intolerante a pessoas ignorantes que acham que por se ser diferente, seja no peso, na religião, na cor ou seja no que for, as pessoas deixam de ser iguais às outras…
Gostava que por um dia todos deixássemos de ver o mundo, as pessoas. Gostava que por um dia todos tivéssemos de “ver” as pessoas como os invisuais: com as mãos, com o coração.
Acho que só nessa altura as pessoas intolerantes perceberiam que somos todos iguais.
Não sou utópica e não peço um mundo perfeito, mas acho que não custa nada tentar não julgar as pessoas pela aparência que têm, ou por terem ideias diferentes das nossas.
Por ter sido testemunha da vida do meu irmão, por ter vivido essa realidade de perto, aprendi a não criticar antes de conhecer a pessoa.
Não sou perfeita e não empatizo com toda a gente. Se, por acaso, houver alguém que não me transmite um bom sentimento ou que não desperta simpatia em mim, simplesmente afasto-me dessa pessoa. Se for forçada a conviver com ela, então não sou rude e sou bem-educada, mas não sou cínica. Não finjo ser amiga de quem não me desperta simpatia, aliás, na maior parte das vezes nem consigo fingir ser simpática.
Em contrapartida, não há nada que não faça pelos meus amigos.
Voltando ao assunto da intolerância, no caso do peso não são só os obesos que a sofrem, pois os excessivamente magros (que por vezes nem o são por opção) também ouvem a sua cota-parte de gracinhas.
Porque têm os humanos de ser tão intolerantes à diferença?
Será que nos sentimos assim tão mal connosco próprios que tenhamos de criticar os outros para nos sentirmos superiores?
Será que temos tão pouca auto-estima que só estamos bem a criticar os outros?
O tempo que perdemos a criticar os outros e a vida dos outros é tempo que perdemos. É tempo em que podíamos estar a viver a nossa vida para nós, por nós. É tempo que estamos a viver em prol dos outros, aliás, não estamos a viver a nossa vida, estamos a “viver” a dos outros.
Muitas vezes penso que criticamos o que cobiçamos ou o que tememos, sem nos aperceber que cobiçamos ou que tememos. Os alvos de críticas são os que têm vidas melhores do que nós ou aquilo em que tememos transformar-nos (por isso é que os magros gozam com os obesos - gostavam de poder comer o que quisessem, sem complexos, mas têm medo de ficar como nós).
Vamos deixar-nos de críticas e viver as nossas vidas, pois vivermos as nossas vidas é o melhor castigo para quem nos critica a nós!